20120122
De onde vem a calma? Da onde brota o medo? Em quantos pedaços podemos ser reduzidos, sem perdermos ainda...? Quando as palavras passaram a ser apenas espelhos retorcidos no fundo de um lago de águas turvas? Eu abri os olhos e já era dia, mas a tempestade insistia em enegrecer o céu matutino...Os pés...os espinhos...Eu estava no pico, cercado de arvores em cinzas, olhando por sobre o vale... o barro e a lama e o lodo...Mas nas vossas frontes sedentas eu não via nada além de desejo e sede, apesar de vossos olhos se turvarem de medo...De onde brota o medo? Eu sentia nos olhares temerosos uma falta e uma insatisfação tremendas, e a ânsia e a maldade estavam apenas nas superfícies de vossas máscaras calmas e distorcidas...Não cheguei a enxergar a tempo, ou teria vos gritado antes...A quimera sem nome e sem rosto...O céu negro nos perturba, mas os olhares continuam rasteiros...Ouço um som de muito tempo, ecoando por caminhos e pontes secretas que nunca serão construídas...Sinto o cheiro e ouço a música, e todas as palavras doces e cortantes... O céu não nos mostrará nenhuma misericórdia, mas ela já esteve em nós, e apenas em nós, e se derramava pelas nossas promessas de glória e de eternidade...Posso sentir seu choro, mas minhas mãos não te alcançam...Posso ouvir meu choro, mas pálido e quase mudo...E sinto o medo nos vossos olhos e nos meus...E alguma calma...Brancos, eram brancos, se não me falha a memória...Mas agora são todos escuros e turvos...O contato com os pés era áspero, mas havia alguma doçura secreta...Vejo os galhos espalhados, e alguns ramos que lutam pra se reerguer além do chão...A atmosférica é pesada, mas antevejo alguma leveza... A chuva cai...Sussurro versos e canções já quase esquecidas...Um sorriso...A gélida água nos beija a fronte... De onde vem a calma?
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